estelionato foi o crime mais praticado contra pessoas idosas em Minas Gerais de janeiro a setembro deste ano. Foram 32.878 vítimas desse tipo de golpe — uma média diária de 120 a cada hora. Os dados, fornecidos pelo Observatório de Segurança Pública de Minas Gerais, fazem parte de uma lista com mais de 200 tipos de crimes contra pessoas de 60 anos ou mais, incluindo agressão física e até homicídio.

Os números também mostram um cenário alarmante: nos nove primeiros meses do ano, 89.937 pessoas nessa faixa etária foram vítimas de alguma infração criminal, o que representa um aumento de 9,34% em relação ao mesmo período registrado em 2024. Esses dados expõem as fragilidades dessa população, sobretudo no ambiente virtual, e revelam a urgente necessidade de amparo para combater essas e outras violências.

‘Varreram tudo’

A aposentada Margareth Schaeffer, de 67 anos, faz parte das estatísticas por ter sido vítima de estelionato. Em outubro deste ano, enquanto vivia o luto pela morte da mãe, ela conta que recebeu uma ligação de uma pessoa se passando pelo gerente do banco no qual é correntista.

“Confesso que não tenho costume de atender ligações de números desconhecidos, mas nesse dia o fiz. O criminoso se apresentou como gerente e falou sobre informações de uma compra que estaria sendo feita em meu nome. Daí ele pediu meus dados e acabei passando”, relembra Margareth.

Durante a conversa com o suposto gerente, Margareth foi orientada a abrir o aplicativo do banco após 20 minutos. Ao acessar o app, conforme a indicação do criminoso, veio o susto.

“Olhei o extrato e vi que não tinha nenhum centavo na minha conta. Eles levaram R$ 5,6 mil. Varreram tudo. Era uma reserva financeira que vinha fazendo para um tratamento dentário. Na hora que vi que tinha sido vítima de estelionato, saí correndo aos prantos, fui até minha vizinha para pedir ajuda e fiz um boletim de ocorrência.”

Margareth conta que ficou “sem chão” diante do golpe. “Fiquei muito mal, mas não tenho vergonha alguma de contar o que sofri até mesmo para alertar outras pessoas. Todos nós estamos sujeitos a ser vítimas, pois os criminosos são muito bem articulados e nos pegam em momentos de fragilidade, como foi o meu caso.”

Orientação e conscientização são essenciais

De acordo com o gerontologista e demógrafo Rodrigo Caetano Arantes, ex-presidente do Conselho Estadual da Pessoa Idosa de Minas Gerais, a instrução sobre o uso do celular pode ser um caminho para mitigar o problema, visto que muitos dos crimes, principalmente os de estelionato, são praticados no ambiente virtual.

“O uso de celulares por pessoas idosas é uma realidade que tem sido muito proveitosa para aproximá-las de seus familiares e, também, para pedir ajuda em caso de qualquer acontecimento relacionado à saúde. Porém, algumas pessoas têm se utilizado disso para praticar golpes contra pessoas idosas, inclusive, com uso da inteligência artificial para imitar a voz de familiares na tentativa de extorsão”, explica o especialista.

Ele exemplifica: “O golpe induz a pessoa idosa a achar que tem algum filho(a) ou outro membro familiar sendo vítima de algum crime e ela acaba cedendo aos pedidos dos golpistas.”

Quase vítima do falso sequestro

Por sorte, o pai de Carlos — que pediu anonimato para não expor a família —, hoje com 75 anos, não foi vítima de estelionato, mas quase caiu no golpe do falso sequestro. Desde então, familiares mantêm conversas explicativas para evitar situações semelhantes.

“Ao atender o telefone, o golpista disse ‘pai’, e meu pai respondeu falando o nome da minha irmã, o que serviu de isca para os bandidos e meu pai passou a imaginar que poderia mesmo ser ela”, relembrou Carlos.

Segundo o filho, a ligação aconteceu no momento em que a irmã estava no trabalho. “Depois de toda a conversa com o farsante, ele desligou e resolveu ligar para minha irmã, que atendeu e desmentiu a confusão. A sensação é de que por uma fração de tempo, se não tivessem tido um pouco de calma, poderiam ter sido pegos pelo desespero de imaginar algum mal para a filha”, completou.

Na capital, o estelionato (crime patrimonial cometido mediante fraude) também lidera a lista de infrações: foram 6.977 de janeiro a setembro deste ano. Ao longo de todo o ano de 2024, foram 7.878 crimes do tipo contra idosos.

Três quartos dos suspeitos não são responsabilizados

Enquanto o número de vítimas de infrações criminais no estado beira os 90 mil casos, o de pessoas conduzidas por suposta autoria dos crimes não chega nem à metade. Das 89.937 vítimas, apenas 20.913 suspeitos foram conduzidos à autoridade policial. É como se, a cada quatro vítimas, apenas uma pessoa fosse responsabilizada pelos atos.

O Observatório de Segurança Pública de Minas Gerais destaca que “no que se refere ao número de conduzidos, os dados são de pessoas que foram conduzidas à autoridade policial pela prática do crime, cabendo ao delegado ratificar ou não a prisão.” Ano passado, o cenário foi similar: 110.831 vítimas para 25.138 conduzidos.

“Temos diversos canais de denúncias, como via Disque 100, Ministério Público, delegacias especializadas, unidades de saúde. O principal é conscientizar a população a fazer denúncias e não se calar frente a atos de violação de direitos e violências sofridas por idosos”, reforçou o gerontologista Rodrigo Caetano Arantes.

Operação Virtude

Em outubro foi celebrado o dia do Idoso, e ao longo do mês diversas ações voltadas à promoção dessa população foram desenvolvidas em Minas Gerais. Na última semana desse mês, a Operação Virtude, coordenada pela Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), com participação de diferentes órgãos (Polícias Civil e Militar, Corpo de Bombeiros, Ministério Público e Defensoria Pública), realizou atendimentos e ações na Praça Sete, no hipercentro de Belo Horizonte.

De acordo com o superintendente de integração e planejamento operacional da Sejusp, Bernardo Naves, a operação englobou ações educativas, de conscientização e de repressão.

“A Operação Virtude acontece em todo o Brasil e em Minas Gerais, trabalhando especificamente no combate aos mais diversos tipos de violências que os idosos podem sofrer, e que infelizmente sofrem. As ações podem ser repressivas, de polícia, de investigação, também preventivas, atendimentos, ações educativas, porque é muito importante também a gente orientar a população como um todo”, afirmou Naves. “Não só o idoso, para conhecer seus direitos e as suas possibilidades de proteção, mas a população, para sensibilizar a todos da necessidade de se cuidar dessa parte da população que é mais vulnerável.”