PRODUTOS IMPORTADOS DEVEM FICAR MAIS CAROS

Com a guerra no Oriente Médio e o bloqueio no Estreito de Ormuz, não é somente o petróleo que vai ficar mais caro, impactando os preços dos combustíveis e da indústria química. Na verdade, vai pesar no bolso do consumidor os valores de todos os produtos importados pelo país – de insumos farmacêuticos a veículos, de fertilizantes a componentes eletrônicos.

Isso porque a guerra iniciada há apenas 11 dias já fez com que o frete marítimo ficasse mais caro. Conforme aumentam os riscos para se iniciar uma viagem por oceanos, cresce também para as companhias marítimas os custos com seguros e combustíveis. Os produtos transportados nas águas chegam mais caros no país e isso pode gerar um efeito cascata na economia.

“Os efeitos já começam a aparecer no custo do frete, mesmo antes de uma disrupção completa das rotas. Armadores já anunciaram medidas concretas, como a aplicação de sobretaxas de emergência por conflito. A CMA CGM, por exemplo, informou a cobrança adicional de até US$ 4.000 por contêiner em alguns tipos de equipamento, refletindo o aumento do risco operacional e do custo de operação na região”, afirma Jackson Campos, que é especialista em comércio exterior.

Segundo ele, o aumento no frete não acontece apenas para navios que passam pelo Estreito de Ormuz (controlado pelo Irã) ou pelo Oriente Médio, mas para a em todos os cantos do mundo. “O sistema marítimo é globalmente conectado. Qualquer tensão em um corredor energético ou logístico relevante acaba pressionando o frete em várias rotas, inclusive para cargas com origem ou destino no Brasil”.

Campos explica também alguns navios que estavam dentro do Golfo Pérsico receberam instruções para buscar abrigo e rotas passaram a ser reorganizadas por questões de segurança. “Esse tipo de decisão tende a gerar atrasos, mudanças de itinerário e menor previsibilidade nas escalas. Ainda não há um cenário de cancelamento massivo para cargas destinadas ao Brasil, mas a cadeia logística começa a operar com mais cautela e com cronogramas mais instáveis”, explica.

Resseguro

Um dos setores mais impactados pela guerra no Oriente Médio é o setor internacional de resseguro (uma espécie de “seguro das seguradoras”). Trata-se de um mercado global, no qual riscos são avaliados e distribuídos entre diferentes regiões, carteiras e linhas de negócio.

Rafaela Barreda, presidente da Federação Nacional das Empresas de Resseguro (Fenaber), esclarece que guerras e tensões geopolíticas elevam a exposição a riscos de guerra e terrorismo e podem levar resseguradoras globais a ajustar políticas de aceitação, rever precificação ou limitar capacidade em regiões mais tensionadas.

“A eventual alta do petróleo, comum em cenários de instabilidade no Oriente Médio, pode pressionar custos logísticos e inflacionários em escala global, com reflexos indiretos no Brasil, inclusive sobre seguros de transporte e operações vinculadas ao comércio exterior. Ainda assim, esses movimentos são avaliados dentro de modelos de risco e capital que já consideram cenários de estresse”, explica Rafaela.

Ela reforça que o setor de resseguro existe justamente para avaliar, absorver e equilibrar riscos. “A indústria opera com forte diversificação geográfica e setorial, o que permite balancear resultados. Quanto maior a concentração de exposição em uma única região, maior a volatilidade potencial. Por outro lado, ao distribuir capital globalmente, os resseguradores aumentam sua capacidade de manter estabilidade e solvência mesmo diante de eventos adversos localizados”, argumenta.

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