Beber uma cervejinha depois de uma longa semana de trabalho pode parecer uma boa maneira de relaxar após uma rotina exaustiva. O comportamento, inclusive, tende a se intensificar quando as pessoas trabalham por mais tempo. É isso o que indica uma pesquisa da Organização Mundial de Saúde (OMS) apresentada recentemente no Congresso Internacional de Saúde Ocupacional, sediado em Melbourne, na Austrália.

Segundo o estudo, que levou em conta dados de 105 mil pessoas e foi coordenado pelo professor Lode Godderis, da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, pessoas que trabalham por mais de 49 horas durante a semana costumam ingerir uma quantidade maior de álcool que aqueles que trabalham por menos horas.

Conforme a pesquisa, esses indivíduos costumam beber 17,7 gramas a mais de álcool puro em relação a pessoas que cumprem uma jornada de 35 a 40 horas semanais. Esse valor equivale a uma taça de vinho a mais ou 250ml de uma cerveja mais fraca.

A diferença diminui um pouco quando eles são comparados com pessoas que trabalham por um pouco mais tempo. Dados do estudo, apontam que eles consomem 10,4 gramas a mais de álcool puro em relação a pessoas que trabalham de 41 a 18 horas semanais.

Álcool como um “prêmio”

Em entrevista ao jornal britânico “The Sun”, Godderis afirmou que o consumo de álcool funciona como uma espécie de premiação. “Beber pode fazer você se sentir mais relaxado e, depois de uma longa semana de trabalho duro, você sente que merece um prêmio, então a gente nos dá esse presente”, explica.

Recorrer ao álcool também pode ser uma forma de “desacelerar” após uma rotina extenuante, principalmente por causa da própria atuação da substância no corpo humano. “O álcool é um depressor do sistema nervoso. A ação dele é justamente a de dar uma relaxada, um soninho. Então a pessoa acaba fazendo o uso dele por não conseguir relaxar sozinha, por estar superacelerada, superansiosa”, explica a psiquiatra Danielle H. Admoni.

O atendente de restaurante Igor, de 24  anos, é uma das pessoas que costuma recorrer à bebida para dar uma descansada. Ele conta que sai sempre aos finais de semana e que o consumo de álcool o ajuda a relaxar principalmente quando ele tem um dia cansativo.

O mesmo acontece com a trabalhadora terceirizada Raíssa de Oliveira Rodrigues, de 23 anos. Embora ela afirme que não costuma beber semanalmente, ela diz que o comportamento é uma forma de se divertir e também de diversificar a rotina. “Ao invés de deitar e dormir, senão não faço nada em casa, eu coloco um pagodinho, compro umas bebidas e fico sozinha em casa, curtindo, escutando música”.

Álcool pode relaxar, mas há riscos em seu consumo

É justamente por provocar sensações que trazem bem-estar e relaxamento, que as bebidas alcoólicas podem surgir como uma válvula de escape diante de momentos de extremo estresse e cansaço. Essa fuga, porém, pode ser carregada de riscos. “A pessoa acaba tratando uma questão ruim de uma maneira muito pior, porque nesse autotratamento pode ser criada uma relação de dependência. Então, acaba surgindo um problema maior do que o primeiro, de a pessoa não conseguir relaxar, de não conseguir mais descansar ou fazer qualquer outra coisa sem o uso do álcool. Ele acaba virando um remédio muito caro nessa situação.”, observa a psiquiatra.

Ela ressalta que, antes de tudo, é importante entender os motivos por trás desse consumo após o trabalho – principalmente se ele se tornar frequente e excessivo. “Por que se está nessa situação? É por estar tão cansado, tão ansioso e não conseguir descansar? Esse é o primeiro olhar necessário porque a partir do momento que você identifica essa questão você tenta correr atrás do que pode te ajudar”, pontua a profissional.

Atividades físicas, atividades de lazer e até a redução do volume de trabalho podem ser uma boa saída quando possíveis. Porém, a psiquiatra reconhece que recorrer, sozinho a essas alternativas, nem sempre pode ser fácil, então orienta que as pessoas procurem ajuda de um profissional para se pensar e tratar o problema.

Existe um limite para o consumo saudável?

Segundo a OMS, não existe um padrão de consumo da substância que seja totalmente seguro. Porém, o órgão possui diretrizes para definir o consumo moderado da substância e recomenda que homens e mulheres não excedam o limite de suas doses por dia – e abstenham-se de beber por pelo menos dois dias na semana. Já o NIAAA (National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism), instituição dos Estados Unidos, orienta que mulheres limitem seu consumo para uma dose diária. Ultrapassar esses limites com frequência, pode indicar algum problema.

Via O Tempo

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